segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amor Natural

Quando nasci era assim:
No distrito de Barroquinha
O ente que ao mundo vinha,
Era filho de Camocim.

Era ainda curumim,
Quando os documentos tirei,
A quem duvidou sempre provei:
Sou natural do Camocim.

Que na Barroca nasci,
Hoje falo aos quatro cantos,
Porem nunca esquecí
Que meu Camuça é um encanto.

Com muito orgulho no peito,
Posso das duas cidades falar.
Mesmo vivendo distante,
Entre as duas hei de morar.

Moro hoje em Fortaleza,
A minha vida vim tentar.
Porém tenho a certeza,
É quase hora de voltar.

Na cidade de Alencar,
Trabalho feito um ‘doidim’.
E todo mês a família convida:
Vamos pra Camocim?

Com a Naiana formada,
E o Júnior a estudar,
Vou preparar os molambos,
Pra minha terra voltar.

Quando chegar o momento,
Logo não exitarei.
E pra não dar gosto a Diana,
Em nenhuma residirei.

Optarei para entre as duas,
Construir um belo lar.
Para onde der vontade,
Dar um pulo pra chegar.

Barroquinha não se peocupe
Com o meu amor por Camocim.
Meu coração é tão grande,
Que cabem vocês ‘tudim’.

O meu amor por Barroquinha,
Não é assim um só ‘tantin’.
Somente posso comparar,
Ao meu amor por Camocim.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Queda na Gruta de Chaval/CE.

Em 1978, no mês de novembro, período de festejos de N. Srª de Lourdes, minha mãe fez, à pé, o percurso entre Barroquinha e Chaval, para pagamento de uma promessa.

Ela e outras mulheres, partiram de nosso distrito, rumo à Chaval, por volta das quatorze horas, em caminhada, com a pretensão de chegarem antes do anoitecer na cidade vizinha. E assim, participarem do evento religioso, em cumprimento à promessa.

Durante o percurso, contou minha mãe, as mulheres rezavam, cantavam hinos de louvou, mas também, brincavam bastante. Isto, sob as vista dos demais viajantes que passavam de carros, bicicletas e a cavalo.

Lá chegando, conforme planejado, foram se estabelecer nas casas de amigos.

Eu, o meu pai e meus irmãos, fomos de carro, somente à noite.

Ao chegarmos, localizamos dona Gouveinha já assistindo a Missa. Para não incomodá-la, meu pai resolveu nos levar para passear um pouco. Lá vai, seu Vicente, levar seus três comportados pupilos para conhecer a cidade, comer pipocas e bombons.

Andando pelo lugar, meu pai, segurava nas mãos dos meus irmãos menores e permitia que eu, por ser um pouco maior, andasse apenas ‘encostado’ neles. Vez em quando, ele colocava meu irmão Paulo, na época, Nenen, assim o chamávamos, nos braços.

De frente à Gruta, então, resolvemos subir.

Com aqueles degraus inclinados, eu nunca tinha visto nada igual, a Gruta estava lotada de gente, subindo e descendo. Quando já estava chegando ao topo, solto sem pegar em nada nem em ninguém, eu me desequilibrei, ‘prantei-me’ no chão e saí ‘bolando’ escada a baixo.

Meu pai, coitado, aflito, não sabia o que fazer. Se, corria pra me salvar ou deixava meus irmãos livres, correndo mesmo risco.

Desci uns dez degraus, machucando as costas a cabeça e os joelhos até chegar, finalmente, nos pés do senhor Chico Baité, que naquele instante, também subia, de mãos dadas com uma moça, e me amparou.

Ora, o choro foi instantâneo. Só parei, quando reencontrei minha mãe, que cuidou dos arranhões e me acalmou. Mas, fiquei dolorido por mais de uma semana.

Oh lembrança, essa!

Aos domingos, em Barroquinha!

Eu passava a semana inteira, esperando o dia de domingo na nossa Barroquinha.

Morávamos, no quadro da rua, era sempre um sonho dos meus pais, próximos da Igreja, à beira da rodagem que ligava Camocim à Chaval, na terceira casa, contando da esquina da calçada alta, vizinha à da moageira de sal do senhor Chico Benício.

Aos domingos, logo cedo, parava quase na nossa porta, um caminhão que transportava uma ‘ruma’ de gente, bagagens e animais que vinham do distrito vizinho, de Araras.

Mesmo menino, recordo que este caminhão, não sei dizer a quem pertencia, tinha algo peculiar que nunca mais vi em lugar algum. Sua ignição, ou seja, pra ‘botar’ o motor para funcionar, o ajudante do motorista, tinha que ter um, utilizava-se de uma manivela colocada na parte frontal do veículo.

Depois de várias giradas e de muita força dispensada, era que o ‘bicho’ pegava.

Os passageiros que saltavam do velho caminhão, logo se espalhavam pelo lugar, quando não, alguns adentravam logo nas mercearias do senhor Raimundo Dazico e do senhor Letácio. E, a partir dali, tome cachaça!

No Paço Novo ou Rua do Ouvidor, especialmente nas bodegas do mercado, aglomeravam-se inúmeros cavalheiros e amazonas, que tinham as mesmas intenções e desejos dos passageiros do caminhão, porém, vinham de outros lugares arredores: Unha-de-gato, Sertão, Juazeiro, Lagoa do Mato, Mucambo, Pernambuco, Barroquinha dos Fiéis, Ilha, etc., por que não dizer também, Bitupitá.

Interessante, era que os cavalos eram mais enfeitados, de que quem os montava. Tamanha a simplicidade do nosso povo. Preocupavam-se mais com a beleza das celas nos animais, que a de suas próprias roupas. Eu, também, comungava com isso. Embora não possuísse nenhum cavalo.

A grande maioria, quem não bebia, vinha apenas visitar os parentes ou participar de algum evento religioso, se estivesse acontecendo, ou ainda, às compras de mantimentos. Mais o certo é que, nosso distrito ficava cheio de gente de fora.

Por volta do meio dia, em diante, a ‘negrada’, em bom barroquinês, começava ir embora, antes que o ‘sol esquentasse’ ainda mais.

À tarde, quase sempre, a diversão era assistir aos jogos da seleção de Futebol de Barroquinha, que de amistosos não tinham nada, vez por outra, alguém puxava uma faca, arrumando confusão.

O time era bom e, quando não saía, recebia outros times da região em um campo, que ficava no descampado longo, existente em frente ao Colégio Carmelita Véras. Ou, ainda, no campo do Edmário. Era tão longo, o descampado, que chegavam a pousar, pequenos aviões.

Na inauguração do Colégio Carmelita Veras, por exemplo, o governador Adauto Bezerra, pousou na porta. Eu e o meu pai, estávamos lá!

Depois, outro campo de futebol, foi criado em um dos terrenos do senhor Oliveira, no bairro da Caucaia. Aliás, segundo meu pai, senhor Oliveira, foi um bom goleiro em sua juventude.

Não conseguiria lembrar o nome de todos os nossos atletas, nem tentaria, para não cometer injustiças, esquecendo de alguém. Porém, lembro, o meu primo Potó, criado pela minha avó Chicota, que parecia uma mistura de calango com sibiti, era um dos goleiros da época.

Pela noitinha, as ‘radiadoras’ da Igreja ecoavam músicas do Padre Zezinho, um pouco antes da batida no sino, chamando os católicos para o Culto Dominical. Que, por ausência de padre na localidade, eram sempre celebrados pelo meu pai, Vicente, Dirigente do dia do Senhor. Missão, que recebeu do queridíssimo Mons. Inácio Nogueira Magalhães, pároco da região.

Durante o Culto, que tinha início às dezenove horas, e principalmente após o término deste, a juventude de Barroquinha, reunia-se na pracinha, ao lado da Igreja, passeando, gastando sola de sapato, de um lado para o outro, no sentido horário e no sentido contrário. Quando não, sentada nos bancos.

Ali, se iniciava as paqueras, os namoros e os romances dos rapazes e moças, continuados nas tertúlias, que tocavam os sucessos dançantes da época.

As tertúlias, eram tocadas em um pequeno salão, existente por trás de um dos ponto de loja, no inicio da Rua do Ouvidor, com acesso ao lado do último ponto, alugado pela minha ex-professora, senhora Socorro do Mundim, junto ao senhor Pedro Véras.

Depois que fiquei mais crescido, foi inaugurado o Imperial Clube. As tertúlias, então, passaram a ser realizadas neste novo espaço. Mais amplo e com capacidade para maior número de pessoas.

Daí, o meu dia acabava e voltava ao marasmo da semana, aguardando o próximo domingo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O circo do ‘seu Coitim’.

Lembro bem, que por duas oportunidades foi montado em Barroquinha, o circo do senhor Coutinho, que em bom barroquinês chamávamos, ‘seu Coitim’.

Na primeira vez em nossa cidade, ‘seu Coitim’, instalou-se no espaço que existia entre o nosso mercado e o muro do Colégio Carmelita Veras. Onde, mais ou menos hoje, funciona a feira de frutas e verduras.

Os espetáculos eram bem apresentados e existiam muitas atrações que prendiam ao público, predominantemente, infanto-juvenil.

O circo, nesta ocasião, era um palco rodeado por arquibancadas, que também chamávamos de poleiro, ‘tapando’ a visão de quem estava fora, apenas, com uma lona branca.

Apesar da simplicidade, as dançarinas, os palhaços, os trapezistas e acrobatas dentre outros artistas, nos divertiam todas as noites, durante o tempo em que o circo ficava montado.

O próprio senhor Coutinho, era uma atração a parte. Pois, além de proprietário, era apresentador e o mágico do espetáculo. Foi o primeiro ilusionista que presenciei trabalhando. Confesso que fiquei encantado com os truques daquele velho.

Quando as apresentações acabavam, meus irmãos, meus amigos e eu, voltávamos para casa ainda comentando sobre o que tínhamos visto.

- ‘Rapaz, aquele homem é pobre porque quer’! Dizíamos, nos referindo ao fato daquele mágico transformar papel de embrulho em dinheiro vivo.

Ficávamos ‘invocados’ com a atitude do ‘seu Coitim’ tirar metros e metros de fitas de sua boca. Não entendíamos como uma pessoa poderia bater na barriga com apenas uma bolinha de ping-pong e depois, literalmente, cuspir várias outras bolinhas.

Como aquilo poderia acontecer? Me perguntava!

Numa segunda oportunidade, a caravana circense retornou à Barroquinha, desta vez, com uma melhor roupagem, com tenda bem armada, um circo como realmente deve ser. Nesta oportunidade, se instalou num campinho atrás da Igreja.

As atrações continuavam as mesmas, porém, agora, o circo do senhor Coutinho possuía uma banda de musica, que só sabia tocar lambada, além de sua mais nova atração: ‘A mulher degolada viva’.

Recordo que certa noite fomos, eu e meus irmãos, assistir a apresentação do circo, curiosos para conhecer a degolação da mulher.

Estávamos no poleiro mais alto, bem na frente do palco. Sentava ao nosso lado o Jocélio, que tinha um jeito sempre muito alegre e peculiar de se comunicar, neto do senhor Raimundo Valdimiro, juntamente com sua irmã Socorrinha.

No momento em que foi, finalmente, anunciada a atração principal, a tal mulher degolada viva, ficamos todos bastante apreensivos sem saber o que exatamente veríamos.

Então, a cortina se abriu e estava lá. Uma mulher sentada em uma cadeira, sua cabeça estava ligeiramente inclinada para trás e a garganta assustadoramente transpassada por uma ‘peixeira’ enorme.

E, ainda, para aumentar o terror da cena, um dos palhaços ‘sacolejava’ o cabo da faca, fazendo com que a moça jorrasse ainda mais sangue pela boca.

A visão era realmente muito forte, todavia, o ‘vexame’ maior estava por vir. Diante do que acabara de ver, nosso amigo Jocélio, não resistiu a emoção e desmaiado ‘despencou’ da arquibancada, mais alta, até o chão.

Foi um alvoroço danado. Esquecemos da mulher degolada viva e, depressa, descemos para socorrer o pobre garoto, que se encontrava ‘esparramado’ na grama com sua irmã aos prantos.

Foi uma noite inesquecível!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Bandeirinha

Na Barroquinha do meu tempo de criança, não tínhamos muita opção de divertimento, além dos jogos de futebol às tardinhas.

No entanto, outra opção, das poucas que nos restava durante todo o ano, era a de brincar de bandeirinha.

Falo durante todo o ano, por algumas diversões serem, por assim dizer, sazonais. Ou seja, o inverno proporcionava que brincássemos no jogo de bilas e de soltar pião. No verão, soltávamos papagaios, as pipas. Apenas o futebol e a bandeirinha, podíamos brincar o ano inteiro.

A bandeirinha, consistia em traçar uma listra no chão e fincar um bastão nas extremidades de cada terreno dividido, representando uma bandeira. A finalidade da brincadeira era fazer com que um time evitasse ao outro ultrapassar a listra para resgatar o bastão fincado ao fundo.

As equipes, não necessariamente existiam um numero exato de componentes, ficavam frente a frente e alguém sempre estava tentando entrar no lado adversário para resgatar a bandeirinha representada pelo bastão.

Quando um dos componentes do time adentrava na área adversária para pegar o bastão e era tocado por um dos membros da outra equipe, ficava preso neste lado, junto do bastão, aguardando que outro membro de seu time viesse resgatá-los.

Assim, o time que ficava com menor número de componentes estava propício a perder o jogo. Pois, o ataque do time adversário poderia ser em maior número de jogadores e os defensores não eram suficientes para evitar o resgate da bandeirinha.

Neste caso, a única opção dos defensores, era tocar o adversário que portava a bandeira. Este continuava preso ao terreno, e a brincadeira continuava até que houvesse um vencedor.

Optávamos por brincar em frente nossa casa, isso quando nossa mãe permitia. A pronúncia de palavras de baixo calão e pornografias que se dirigia, muitas vezes, a genitora dos ofendidos, não a agradava.

Todavia, dávamos sempre um jeito de participar da brincadeira.

Minha irmã Cristiana

Após cinco gestações, sendo todas de crianças do sexo masculino e de ter abortado espontaneamente as duas primeiras, minha mãe sonhava em ser mãe de uma filha mulher.

Tio Fernando Gouveia, irmão de minha mãe, e tia Aurí, sua esposa, haviam sido padrinhos de uma menina, por nome de Cristina, e acabaram por adotá-la como filha.

Filha do casal Manoel e Cícera, a menina Cristina era irmã gêmea de outra menina, esta por nome Cristiana, que apesar de um ano de vida ainda não andava e não pronunciava palavra alguma.

O referido casal, tinha muitos outros filhos, inclusive um bebê, recém-nascido. E, na época, a situação em que as crianças viviam não lhes proporcionavam grandes perspectivas de vida.

Então, incentivada pelo irmão e pela cunhada e da aceitação dos pais biológicos, minha mãe resolveu tomar a outra menina, Cristiana, para criar e assim realizar um sonho antigo de ter uma moça em nossa casa.

-‘Pra outra pessoa não. Mas, para senhor Vicente e dona Gouveinha, eu aceito que ela vá!’. Disse a mãe Cícera.

Em 1980, nossa irmãzinha chegou a nossa casa.

Miudinha, nem sentava direito, virou a patetice da família e logo, por eu seu o mais velho, passou a ser uma de minhas tarefas de casa, fazê-la dormir.

Observei que aquele, agora, nosso bebê, tinha como hábito se auto-acalentar. Pois, quando estava com sono, nem precisava eu balançar a redinha dela. Ela própria, sozinha, fazia um movimento de meio giro com as perninhas, proporcionando-lhe sono profundo.

Mesmo não sendo de sangue, Cristiana ocupou o espaço no seio da família como nossa verdadeira e única irmã. Herdando também como seus, nossos avós, nossas tias, nossos tios, primos e primas, parentes e aderentes.

Pois, acredito que esta foi uma missão que meus pais obtiveram para esta vida, e que assim como a mim, ao Emanoel e ao Paulo, também a ela, teriam que receber como seus verdadeiros filhos e filha.

Nossa família não estaria completa se nossa irmã Cristiana não existisse.

Orlando Félix de Oliveira

O senhor Orlando Félix era uma daquelas figuras que jamais esquecemos.

Barbeiro de profissão, também exercia função de carpinteiro e marceneiro além, nas horas vagas, de grande historiador.

Sua barbearia, principalmente aos domingos, recebia inúmeros clientes de vários lugares vizinhos, para cortar os cabelos e fazerem a barba.

Grande amigo de meu pai, o carequinha, não tinha um fiapo sequer de cabelo na cabeça, era uma pessoa simples, mas de um senso de humor invejável. Sua inteligência e sua memória astuta eram de causar inveja a muitos humoristas imitadores dos dias de hoje.

Imitava com grande perfeição quase todos os seus amigos e clientes. Sabia colocar como poucos, uma brincadeira ou mesmo uma piada, às vezes até de forma ingênua, em tudo o que fazia e onde quer que estivesse.

Certo domingo, na casa de tia Leontina e tio Jose Maria, no Paço Novo, após uma reunião vespertina do Círculo Bíblico, minha tia serviu um doce como cortesia aos presentes.

O silencio predominava na sala, quando senhor Orlando soltou: - ‘Oh doce doce, nunca vi um doce tão doce, como este doce.’

Foi o suficiente para quebrar o gelo do silêncio, causando em todos grande gargalhada.

Suas estórias, todas muito engraçadas, faziam com que todos dispensassem a atenção para ouvi-las.

Outro domingo, à noite após o Culto Dominical na igreja, senhor Orlando contou-nos que quando namorava sua esposa, dona Regina, precisava tomar um cavalo para ir visitar a moça no distrito de Amarelas.

Religiosamente, toda semana, ele fazia aquela rotina para encontrar sua noiva.

Foi então, que numa destas visitas, ele se deparou com algo que naquele dia, para ele, era de outro mundo.

Quando estava para chegar à residência dos pais de sua futura esposa, em frente à moradia, iluminado apenas pela luz da lua, de longe avistou o reflexo de um monstro enorme.

O referido monstro estava de pé, com dois braços abertos e usava chapéu e gravata.

Tremendo de medo, ele disse: ‘-pronto, hoje eu num vejo Regina. E agora?’ se perguntou sem saber o que fazer.

Lembrou o que os antigos diziam, que numa situação de medo como aquela, se o sujeito mordesse a faca, o medo passava.

-‘Quase engoli o meu punhal e o medo não passou.’ Ironizou ele próprio.

Depois de muito tempo parado com medo de se aproximar daquele monstro, percebeu certa movimentação na casa, com vergonha de que alguém já o tivesse visto, tomou coragem e seguiu em frente ao encontro da amada.

Foi quando para sua surpresa, percebeu que o monstro de nada existia.

Na realidade, o monstro era o que restava de uma velha árvore, a qual ele nunca havia dado conta e, naquele dia, fora podada deixando dois galhos laterais que, de longe, ele enxergou como braços abertos.

E o chapéu e a gravata? Lembro de alguém perguntando!

No mesmo dia, explicou senhor Orlando, houve a matança de um porco e a bacia onde ferveram a água para a pelagem do animal, suja de fumaça preta, foi emborcada na cabeça do monstro, ou melhor, da árvore, passando a idéia visual de usar um chapéu.

Já a gravata, foi resultado de terem ateado fogo na parte superior da árvore com a intenção de matar o miolo e evitar que a mesma continuasse floreando e, por coincidência, a queimação caprichosamente desceu na madeira, fazendo com quem avistasse a distancia, confundisse com uma gravata. Finalizou ele.

Numa oportunidade, lembro de ter julgado o velho barbeiro, como sem juízo. Pois carpinteiro que também era, construiu o próprio caixão funeral e o guardava em casa. Um dia, passando em frente de sua casa, estava o caixão exposto na sala e, pasmem, o senhor Orlando estava deitado dentro se fingindo de morto. E gritava: - ‘Regina, Regina, olha aqui, vem me ver!’

Tomei um susto imenso. Afinal, como todo menino da minha idade, morria de medo dos mortos.

Já doente e fragilizado, continuava a trabalhar na barbearia. Recordo, quando eu ainda menino, no momento em que cortava o meu cabelo, pela última vez, rogou a Deus pedindo saúde para que um dia pudesse também, fazer a minha barba.

Jurei a mim mesmo, no dia que eu tivesse pêlos no queixo, lhe proporcionaria a realização deste desejo. Porém, Deus, o chamou antes que realizasse o seu pedido.