Sempre me senti pressionado, por mim mesmo, na intenção de descobrir desde cedo o que eu seria na vida? De como poderia trabalhar ou o que poderia fazer para sustentar uma família? Com quem me casaria? E outras mais. Eram perguntas que eu me fazia, mesmo quando ainda muito jovem.
Muito precoce em quase tudo, vivia intensamente todos os meus sentimentos, me preocupava sem necessidades, com assuntos que normalmente não seriam da ‘conta’ de um adolescente.
Então, já morando em Camocim, ficava ´cutucando’ ao meu pai para que, por intermédio de suas amizades, conseguisse um emprego para mim.
Aos quinze anos, portanto, por intermédio de um contato do meu genitor com o senhor Edilson Véras Coelho, conseguimos um estágio de locutor na, 14,50 AM, Rádio Pinto Martins de Camocim.
Coincidência, ou não, era a realização de um sonho. Pois, mesmo, sem saber o que iria encontrar de trabalho pela frente, era com o rádio que eu me identificava e passava horas afio, ensaiando em casa.
Com um bilhete em mãos do presidente, senhor Edilson, avalizando meu primeiro emprego, me apresentei à direção da emissora, no dia seguinte. Muito cedo.
No primeiro dia, me deram um ‘chá de cadeira’ de uma manhã inteira. Lá pelas onze e meia, me mandaram voltar no dia seguinte.
A vontade de trabalhar era tanta e, maior ainda, a de me tornar locutor, que às sete e meia da manhã, eu estava lá novamente.
Desta vez, o diretor da rádio, grande comunicador, Cardoso Filho, conversou comigo, fizemos um teste, ele gostou e então fiquei ao seu lado, num programa da manhã que ele mesmo apresentava.
Meu estágio consistia em observar o modo como ele se comunicava, o trato com os ouvintes, aprender os bordões de freqüência da rádio, além de uma série de informações e técnicas, que só quem é do rádio entende.
Já no segundo dia, senhor Cardoso chamou-me e disse: - ‘Hoje você começa definitivamente, já falando no ar, ao meu lado’.
As pernas ‘bambearam’, as mãos começaram a suar, fiquei muito nervoso, mas, entrei no estúdio ao lado dele.
Depois de dois dias, eu já estava completamente à vontade. O velho comunicador me ajudava e eu não ‘titubeava’, lia as notícias, informava as horas, fazia apresentação musical, atendia aos ouvintes no telefone, etc.
Depois de uma semana de estágio, cheguei a fazer a apresentação do programa da manhã, no horário do próprio Cardoso Filho, sozinho, enquanto este estava numa viajem.
Então, quando o mesmo voltou, lembro que ele saiu perguntando aos demais colegas, o que tinham achado de mim e da minha desenvoltura como apresentador.
Bem, a maioria, para minha felicidade, disse que eu já estava pronto. Outros, acho que por ciúmes, ficaram calados. Mas o certo, era que eu ia fazer o meu primeiro programa, sendo o locutor principal do Big Show, como sempre havia sonhado, já no sábado à noite.
Eu não cabia em mim, de ansiedade e emoção.
Foi então que fui convidado para uma reunião, já como locutor, na sexta feira, meio dia, após o programa da manhã, e o pior aconteceu.
Cardoso Filho, finalizando seu programa, no momento em que informou as horas para os ouvintes, fez o seguinte comentário, em tom de brincadeira.
- “O Raimundo comprou um ‘Oriente’, o Sandro ficou com o ‘Mido’ e o Gouveia deu o ‘Roscópi”.
A menção, de duplo sentido, era à palavra ‘ROSCOFE’, no sentido amplo da palavra, porém de uma indelicadeza e pura falta de criatividade. Comuns a alguns comunicadores, que se sentem dono das palavras e acham que podem dizer idiotices quando querem.
Sabendo que minha família estava ouvindo aquilo em nossa casa, meu coração se apertou. E, não deu outra, antes que a reunião começasse, meu pai entrou na sala, me chamou na frente de todos e proibiu que voltasse àquele lugar.
E assim, foi ‘por água abaixo’, o meu sonho ser me tornar locutor de rádio.
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